Soja. Devemos evitar?

O consumo de soja é um dos temas mais controversos na área da nutrição. As principais questões associadas estão relacionadas com o risco de cancro da mama, alteração da função da tiroide, efeitos feminizantes nos homens e o facto de a soja ser frequentemente geneticamente modificada.


A soja é uma leguminosa, fonte de proteína vegetal, rica em fibra, várias vitaminas e minerais (Vitamina B e E; ferro, zinco, cálcio, fósforo e potássio), que contém isoflavonas. As isoflavonas são consideradas fitoestrogénios (estrogénios das plantas) e apresentam estrutura e ação semelhante aos nossos estrogénios endógenos (Messina, 2016). É por este efeito de imitação dos estrogénios que se associam as isoflavonas da soja à interação hormonal. Mas as isoflavonas da soja não têm um efeito estrogénico significativo, tendo até um efeito antiestrogénico, devido à capacidade de se ligarem aos estrogénios do nosso corpo, amenizando assim a sua ação. Para além deste efeito antiestrogénico, as isoflavonas também apresentam propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias (Malenčić et al., 2012).


Por estas razões, e ao contrário do que se possa pensar, verifica-se que o consumo de soja pode ter um efeito protetor contra determinados tipos de cancro (cólon, endométrio, mama e próstata) ((Chen et al., 2014; Messina, 2016; Qiu & Jiang, 2019; Wei et al., 2020). De sublinhar que grande parte dos estudos epidemiológicos foram realizados com mulheres asiáticas, sendo que o efeito benéfico em mulheres ocidentais parece ser menor.


A evidência clínica do impacto das isoflavonas no desenvolvimento de características femininas nos homens é baseada em estudos de caso, no qual se reportam consumos 6 a 9 vezes superiores aos que ocorrem em populações asiáticas, ou na presença de doenças crónicas que também podem afetar a testosterona e fertilidade. Assim sendo, não é provável que um consumo comedido, mesmo que diário, possa afetar os níveis de testosterona e fertilidade (Hamilton-Reeves et al., 2010; Messina, 2016).


Para além das isoflavonas, a soja também contém compostos goitrogénicos. Os compostos goitrogénicos interferem com a absorção do iodo, oligoelemento essencial para a função da glândula da tiroide. Todavia, a maior parte dos compostos goitrogénicos são destruídos pela ação do calor durante a cozedura ou pela fermentação dos produtos à base de soja (Dr Justine Butler & Veronika Powell MSc, 2018). Com uma ingestão adequada de iodo através da dieta, não se verifica esta questão. Contudo, a evidência científica sugere que, em pessoas diagnosticadas com hipotiroidismo, medicadas com levotiroxina, possa ocorrer diminuição da absorção deste medicamento (devido às isoflavonas), pelo que o consumo de soja deve ser feito de forma muito moderada (Sathyapalan et al., 2011).


No que diz respeito à soja geneticamente modificada, devemos ter em consideração que a maior parte da mesma é utilizada para alimentação animal. Na União Europeia, a maior parte da soja consumida não é geneticamente modificada. Sendo que é obrigatório por lei a indicação no rótulo alimentar, da presença de organismos geneticamente modificados (OGM), sempre que a sua presença seja igual ou superior a 0,9% do produto. Todos os OGM autorizados pela União Europeia são considerados seguros antes de serem colocados no mercado. Ainda assim, o tema dos OGM não é consensual e carece de mais pesquisas sobre os efeitos a longo prazo (Bawa & Anilakumar, 2013).


Resumindo, boa parte das preocupações associadas ao consumo de soja não têm fundamento, pelo que são comprovados vários efeitos benéficos de um consumo moderado deste alimento.


Ainda assim, é de referir que o consumo de soja não é essencial para uma alimentação saudável e que, para quem inclui soja na sua alimentação, deve optar por produtos que não sejam processados, como as bebidas, iogurtes, tofu e tempeh.


 

Por: Alice Dias, Nutricionista do Clube de Saúde Kalorias Évora e Castelo Branco, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº4413N ( alicedias@kalorias.com ).

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